enquanto sua orelha puder guardar como uma concha seu jorrar oceânico

Acordava mais um dia com a latrina da casa de força sendo fuzilada pela caceta d’o pai. A kegelmania chegou até pro véio que a praticava ritmicamente no mijo dando o acento forte na cabeça do tempo em 6 / 8 e silenciando no resto do compasso. Seria uma valsa não fosse pela banana de dinamite de ureia e amônia no maldito do primeiro tempo. O tiro de canhão estourava o início do segundo compasso da lagoa sanitária e aliviava o período angustiante do irrequieto aguardo (implorava como um metrônomo por regularidade). A cauda final da seção toda era o som da descarga depois do qual se seguia algum alívio, mas ele não era certo (implorava pela última como um alcoólatra). Um pouco mais era a torneira, mas nem sempre suas mãos eram lavadas (implorava a traumatofilia inconsciente por repetição). Aquelas rajadas de mijo tinham a duração de semimínimas e seu campo tonal era próximo ao de uma tuba. Rajada atrás de rajada, não havia fluxo contínuo laminar, quem diria relaxamento peniano, era tudo tensionado dolorosamente. Do quarto onde dormia o mijo soava como canto de labuta, picaretada atrás de picaretada em precisos compassos que impediam a mutilação do órgão genital. Impossível não sincronizar a cabeça com aquele ritmo. Acordar com aquilo era despertar escorrendo imundice.

Receando o suicídio do filho, o atirador redigiu uma carta em Arial Black 15 negritada. DE: PARA:. Imprimiu seu nome e o do filho em CAIXA ALTA. Não havia uma única letra cursiva sequer no texto. A inscrição da alma pela caneta-tinteiro e mata-borrão foi exorcizada no imponente e infinito QWERTYUIOP. A permutação e comutação das letras e dos tipos comprovavam o domínio simbólico e total do Pai. Na carta, depois de capítulos piegas chamados “Vida” e outro chamado “Morte”, seguia um belíssimo sobre seu próprio pai (o pai do pai, enterrando Édipo na cadeia de Markov), seu pincel de barba e sua lâmina, um dia antes da morte do velho do velho já debilitado e incapacitado. Depois de um outro capítulo que levava o título de um livro de Érico Veríssimo, no último capítulo da carta, sugeria ao filho suicida pensar no kamikaze japonês Kato Matsuda, que dizia  ‘papai-mamãe me desculpem por ser um filho ingrato’. Aleijava desonrosa e inglória a pulsão suicida. 

O pai escreveu essa carta antes de fazer uma breve viagem de uma semana e logo após temer pelo último mijão que seu filho ouviria em vida. Tolo, não podia imaginar que não havia necessidade do kamikaze para manter sua vida enquanto na sobrevida do membro-fantasma e na cabeça do tempo do compasso o pau mantivesse o tempo de pé.

audio e vídeo em: https://www.instagram.com/reel/CvhoNDgNOmy/

olhava pros lados e só via poetas

Flertava quando antes do beijo uma pústula se intrometia logo acima da minha bochecha. Sentia o troço se acomodando tão bem na minha cara que era como o conforto dos braços cruzados sobre a imensa barriga d’água de um velho cervejeiro depois de acabarem todas as Originais do churrasco do cunhado e o filho da puta ainda reclamar na volta pra casa. O zigomático não é o tipo de osso que toparia, se perguntado, ter uma maçã do rosto junto de si. Aquela secreção só podia ser a revolta do fundo do crânio contra a carniça, do crânio que deixou de ser Caveira para se casar com as pretendentes duas maçãs do rosto e passar a se empetecar com o venenoso ardil de um rosto esbelto tinindo de reluz a ocultar seu esqueleto amarelo, a gordura cagada e sua pele retalhada; cadavérico fundo ocre a organizar vermes misturas em feições para um rosto. Afastei a garota e corri ao banheiro. Tava lotado e a pústula começava a detonar a minha cara como uma furadeira ligada de dentro pra fora esgarçando todo o resíduo granulado dos detritos internos, uma sorte de farinha de osso – para fertilizar sabe-se lá o quê –, concreto seco bem moído e caliça triturada. Essa merda saía da minha cara misturada no lamaçal pútrido de um sebo vivo. O banheiro não me adiantava nada: não tinha nem como espremer aquela porra. Precisava de um vergalhão inteiro roçando o buraco da minha cara pra desentupir a caixa de gordura do meu crânio possuído. Baixando o desespero meio aquela imundice toda, olhava pros lados e só via poetas. Um deles, um homem muito profundo, sorria meio lobotomizado para mim, tinha mó cara daqueles marmanjos que gostam de foto de mulher pelada e do quadro buceta-mundo, nas horas vagas devia mesmo fotografar “nu erótico” em preto-e-branco com uma Leica alemã dizendo pra mina pelada que a camera é laica mas ele é ateu. Começou a falar que no Sarcófago Romano, poema de Rilke, há algo de parecido (não tinha nada a ver; ou até tinha, dane-se) nos versos: “no lento arruinar-se das roupagens, jazia um corpo lentamente derrocado” (o arrombado ainda me declamou em alemão uma primeira vez). Outro poeta, que me cercava pelo lado direito, dizia não ser por acaso que as unhas e os cabelos, que na vida a gente arranca como coisa morta, continuam a crescer nos cadáveres. E que, se pensarmos no ponto de vista da morte, vida é o meio de produção do cadáver. Esse canalha portava um suporte de soro hospitalar como um estandarte – x – derramando gota-a-gota uma das ilustrações do Auguste Rodin pra Les Fleurs du Mal da bolsa do soro pro garrote até o cateter intravenoso, o que indexava toda crise de opiomania literária que assolava esse espaço. No meio desses dois que pareciam só conversar entre eles, a secreção atravessava meu corpo tornado espectro literário. Queria voltar a flertar, mas o que eu precisava mais era do vergalhão pra enfiar no fundo da minha cara.

áudio e vídeo em: https://www.instagram.com/p/CtuaT62MpjO/
[extraído de Alemanha no Outono [1978], filme de Alexander Klüge, Rainer Werner Fassbinder, Alf Brustellin, Maximiliane Mainka, Beate Mainka-Jellinghaus, Peter Schubert, Bernhard Sinkel, Hans Peter Cloos, Edgar Reitz, Katja Rupé, Volker Schlöndorff]

Três Máximas selecionadas por Benjamin

As seguintes máximas foram extraídas por Walter Benjamin da Teoria da ambição de Marie-Jean Hérault de Séchelles (1759-94), participante ativo da Revolução Francesa, guilhotinado em 1794. Escolhidas “quase ao acaso”, as máximas selecionadas são remetidas a Adorno, na correspondência de 1º de Maio de 1935.

XL – As ideias que são importantes à pessoa devem ser coordenadas a seus dez dedos e às específicas juntas.

XLI – O que uma pessoa mais precisa ser no momento deve ser associado àquelas coisas ou pessoas que ela ama, mas sobretudo àquelas que odeia.

XLII – Se alguém pretende se ocupar com coisas ou com pessoas, então aquelas ideias que lhe são importantes devem ser coordenadas a uma série de objetos que se acham constantemente sob os olhos à medida que passamos.

(ADORNO, T.; BENJAMIN, W. Correspondência, 1928-1940. Tradução José Marcos Mariani de Macedo. 2ª Ed. São Paulo: Editora Unesp, 2012. p. 145-146)

A técnica do escritor em treze teses

: Walter Benjamin, A Rua de Mão Única

É proibido afixar cartazes!

A técnica do escritos em treze teses

I. Quem quiser lançar-se a escrever uma obra de fôlego, instale-se comodamente e conceda a si próprio ao fim de cada dia de trabalho tudo aquilo que não prejudique a sua continuação.

II. Fale do que escreveu, se quiser, mas não leia nada a ninguém enquanto o trabalho estiver em curso. Toda satisfação que daí possa retirar retardará o seu ritmo. Seguindo esse regime, o desejo crescente de comunicação acabará por ser um estímulo à conclusão.

III. Quanto às condições de trabalho, procure fugir à mediocridade da vida quotidiana. O meio sossego, acompanhado de ruídos pouco estimulantes, é degradante. Já o ruído de fundo de um estudo musical ou da confusão de vozes pode ser tão importante para o trabalho quanto o silêncio tangível da noite. Se este afina o ouvido interior, aqueles se tornam pedra de toque de uma dicção cuja riqueza consegue absorver em si até esses ruídos excêntricos.

IV. Evite servir-se do primeiro instrumento de trabalho que tenha à mão. É útil o apego pedante a determinados tipos de papel, canetas, tintas. Sem luxos, mas com a indispensável abundância desses utensílios.

V. Não deixe que nenhum pensamento passe por você incógnito, e use o seu bloco de notas com o mesmo rigor com que os serviços oficiais fazem o registro dos estrangeiros.

VI. Torne a sua caneta avessa à inspiração, e ela atrairá a si com a força de um ímã. Quanto mais refletir antes de passar a escrito uma intuição, tanto mais amadurecida ela se te oferecerá. A fala conquista o pensamento, mas a escrita domina-o.

VII. Nunca deixe de escrever pelo fato de não o ocorrer mais nada. Um dos mandamentos da honra literária é o de interromper a escrita apenas quando há que respeitar uma hora marcada (uma refeição, um encontro) ou quando damos o trabalho por terminado.

VIII. Preencha os momentos de falta de inspiração passando a limpo o que já escreveu. Entretanto, a inspiração despertará.

IX. Nulla dies sine linea – mas semanas sim.

X. Nunca dê uma obra por acabada sem ter mergulhado nela uma vez mais, desde o serão até o nascer do dia.

XI. Não escreva a conclusão do trabalho no lugar onde habitualmente trabalha. Aí, perderia a coragem de fazê-lo.

XII. Graus de elaboração da obra: pensamento – estilo – escrita. A finalidade de passar a limpo é a de que agora toda a atenção se concentre na caligrafia. O pensamento mata a inspiração, o estilo aprisiona o pensamento, a escrita recompensa o estilo.

XIII. A obra é a máscara mortuária da sua concepção.

BENJAMIN, W. Rua de Mão Única : Infância Berlinense : 1900. Edição e tradução João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica, 2013. p. 27-28.

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