Max Ernst, Pequena Máquina Construída por Minimax Dadamax em pessoa. 1919-1920. Impresso à mão, lápis de tinta, tinta e guache em papel marrom. 50 x 31.5 cm.
Pretendemos desenvolver a redação da tese por meio de uma micrologia ou organização constelatória de fenômenos históricos esparsos e elaborações teóricas críticas do século XX que ajudem a dar visibilidade aos fenômenos de dessensibilização no terceiro milênio. Essa dessensibilização pode ser conceituada como a relação entre a objetiva torrente de excitação nervosa a produzir uma dessensibilização estética do corpo do sujeito moderno. O bombardeamento de estímulos nos tornaria cegos e surdos à miséria da vida interior e a de nosso arredor. A dimensão da experiência vivida que visamos compreender é a de como é possível tolerar o intolerável? Ou, como é possível suportar o insuportável? Na linha da economia política, sugere-se que o desenvolvimento do capitalismo depende de produzir, na base de sua reprodução, uma massa dessensibilizada. Em um dos capítulos intencionados dessa micrologia procuro, na figura de Schreber, um antecipador dos problemas do terceiro milênio e, na teoria estético-somática do fascismo de Klaws Theweleit, a sobrevida histórica do fascismo como movimento pulsional do corpo masculino: a blindagem e o enrijecimento do corpo.
Neste texto, apresentado à disciplina de Seminários de Pesquisa I do PPGFIL-UFPR, lanço dois ‘balões de ensaio’, acerca da estética fascista da eletrônica (Theweleit) e da introversão do mundo tecnológico na figura do paranoico Daniel Paul Schreber.
Algumas notas aparecem como “Nota pessoal”, elas são antes arquivamento de pensamento para elaboração posterior do que efetivamente linhas de abertura especulativas do texto e podem ser ignoradas.
- A estética fascista da eletrônica, Klaws Theweleit
Nos dois volumes de Male Fantasies (Fantasias Masculinas, sem tradução brasileira), originalmente publicado em 1978, o sociológo alemão Klaws Theweleit se volta às origens somáticas do nazifascismo a partir do mortífero imaginário masculinista que mobilizava o desejo homicida da milícia protofascista Freikorps, movimento fascista berço da SS e dos paramilitares do regime nazifascista, comparável aos arditi italianos. O longo e virulento trabalho de Theweleit percorre a formação somática do caráter fascista nos diários dos mesmos (Jünger, von Solomon, Eichmann, Rudolf Höss entre outros[1]). Essa formação somática vai “do pavor da mulher ao ódio ao comunismo e à rebelião da classe proletária” (Ehrenreich apud Theweleit, 1987, p. xiv)[2]. Na tese de Theweleit, a formação da masculinidade viril está na origem dos movimentos fascistas[3].
No que nos concerne neste texto, acompanharemos o autor de Male Fantasies em um breve texto que aparece em uma nota de rodapé, na qual Theweleit especula acerca da sobrevida do movimento somático-pulsional fascista dos Freikorps, cuja base técnica era a apoteose na máquina e a tão sonhada metalização do corpo masculino,naquilo que o pesquisador nomeia como uma futura estética fascista da eletrônica. Tendo em vistas que a publicação do indigesto estudo de Theweleit é de 1979, anterior, portanto, à consolidação global da infraestrutura informático-eletrônica tal como passamos a habitar na internet, é quase meio século que nos separa do alerta soado por um pesquisador do fascismo acerca da sobrevivência de uma volúpia fascista alojada na rede de informações mundial:
Hoje é provável [likely] que a promessa de prazeres intensos não seja sustentada pelas máquinas, ao invés disso, [é sustentada] por partes de nosso ser inconsciente lançado no espaço na velocidade da luz e aterrissando em planetas alienígenas, mas ainda controlado por nossos computadores; as profundezas ocultas de nossas almas armazenadas, catalogadas e estruturadas em vastos bancos de dados, incontáveis componentes prototípicos que podem ser recuperados [recalled] em questão de segundos, contendo os mais profundos saberes [insights]. Estou um tanto convencido que existem algumas pessoas por aí [dotted around] que já estão mexendo [tinkering] com uma estética fascista da eletrônica. (Theweleit, 1989, p. 481, nota 6)
Esta nota soa um tanto enigmática, mas essas pessoas que estariam a mexer [tinker] com uma estética fascista da eletrônica, poderiam ser elas os engenheiros de software? Cientistas da informação, programadoras e trabalhadores da eletrônica? O tecnolibertarianismo do Silicon Valley que tomou conta das entranhas departamentais do maior império do século XXI no novo governo Trump, a ponto de hoje podermos ter como hipótese uma fundação tecnocrática do poder global? Ou ainda, seriam estas pessoas pesquisadores e pesquisadoras, teóricas e críticas do fascismo cibernético? A interpretação pelos primeiros é a mais pungente, afinal, a divisibilidade do indivíduo em fluxos de informação, organizados em coágulos estatísticos chamados público-alvo (marketing) ou opinião pública (política), compõe um campo ciberespacial e temporal que abriga novos vetores de trabalho e circulação de capital no terceiro milênio (Wark, 2022), estamos sujeitos à avassaladora gestão de nossos territórios geográficos e mentais por meio de mapas libidinais que nos quantificam em bits, e organizados em redes de armazenamento e catalogação utilizadas pelos proprietários dos meios vetoriais de informação para fins de valorização do valor (procissão sanguinária de tendência infinita do capital).
Mas voltemos à nota de Theweleit. Ela abre fazendo referência à uma “promessa de prazeres intensos” presente nos movimentos fascistas do início do século XX, essa promessa teria sido hospedada nas máquinas bélicas e civis e, como nos parece, futuramente inoculada nas máquinas eletrônicas. Ela apareceu, no início do século XX, particularmente no programa das máquinas de Ernst Jünger, o qual, entoando o ode à beleza das máquinas e sonhando com a realização bélica do homem mecânico, típica da estética futurista articulada na Itália (Marinetti, 1935[4]), diz: “A máquina deve ser feita mais do que mero meio de produção a satisfazer nossas reles mesquinhas necessidades; ela deve nos prover com uma maior e mais profunda satisfação” (apud Theweleit, p. 197). Até aqui, salvo a débil sensibilidade às insatisfeitas necessidades físicas e vitais negadas ao corpo humano esfomeado, inundado pela enxurrada de incessantes novidades estimulatórias pseudo-prazerosas, e espiritualmente atrofiado sob a forma de vida capitalista, poderia até parecer um tipo de programa de comunismo de luxo (Comuna de Paris[5]), marxista dadaísta (Benjamin) ou aceleracionista (Srnicek; Fisher; Laboria Cubiks).. Contudo, o desejo de integração à totalidade e a uma experiência total, tipicamente fascistas, surge em Jünger: “Quando [as máquinas vierem a nos prover com maiores e mais profundas satisfações; RM] […]; o artista criativo subitamente perceberá a máquina menos como uma pragmática coleção de partes de ferro, mas como uma totalidade” (Jünger, apud Theweleit, 1987, p. 198).
Como Theweleit aponta, Jünger se livra sem menores cerimônias dos desejos corporais, substituindo-os pela máquina total, na “utopia do guerreiro de corpo mecanizado”, produzindo um “sensório anti-sensual” (Theweleit, 1987, p. 199). O trabalhador é subsumido numa categoria unitária como vetor da mobilização total da guerra do trabalho e a sua consciência reificada “situada fora da zona da dor”, admitindo e admirando o desencadeamento do “processo furioso” do trabalho indiferenciado (de destruição, de produção, de reprodução) de todas as coisas, humanas e não-humanas. Seguindo a argumentação de Theweleit, o corpo fascista exige a satisfação da volúpia destrutiva hospedada nas pulsões tecnológicas da máquina, a qual contém, ambivalentemente, pulsões emancipatórias de abolição do jugo do trabalho. Os “componentes individuais ocupam e suprem [fulfil] posições prescritas e funções específicas”, e a vida pulsional é “controlada e transformada numa dinâmica de funções regularizadas; vazia [devoid] de sentimentos, poderosa; suas intensidades desejantes tomam a forma da ‘velocidade’ da ‘explosão’”. Nessa vida pulsional sob a máquina total, seus fluxos são liberados somente se “os componentes individuais se sobrecarregam ou explodem”, em uma totalidade de “persecução paranoica, cerceante, delimitante”, sufocando as velocidades até sua irrupção em guerra e violência – a consumação da volúpia prometida pela máquina total (Theweleit, 1987, p. 198).
(Em tempos de bomba, pós-Freikorps, a volúpia prometida na irrupção da máquina total (em vias de construção no circuito eletrônico), é a da autoaniquilação, “a satisfação artística da percepção sensorial transformada pela técnica, tal como Marinetti confessa, da guerra” (Benjamin, 2012, p. 123). Benjamin atribui a alienação da imagem da humanidade no circuito técnico-bélico à modernização industrial, que intensificou a reprodução da imagem do humano como um objeto de espetáculo para a própria humanidade (fotografia, jornalismo, etc.). Essa autoalienação humana, “atingiu um grau que lhe permite vivenciar sua própria destruição como um gozo estético de primeira ordem” (Benjamin, 2012, p. 123), vivência esta expressa na estética futurista da guerra, e vivida no corpo dos Freikorps, que a repetem compulsivamente nos seus diários.)
Nas narrativas em primeira pessoa dos diários dos Freikorps, Theweleit nota que “o que o fascista demanda é uma guerra em que todas as máquinas são mobilizadas, uma guerra em que ele experiencie o todo de seu ser e seu potencial futuro” (Theweleit, 1987, p. 200). A manutenção de seletos tipos existentes de seres humanos é um dos objetos do desejo fascista: a guerra não é tão somente destrutiva, a guerra opera em benefício da reprodução do guerreiro por meio da morte, o heróico sobrevivente, o guerreiro remanescente. Diante da obsolescência do assim chamado ser humano, é na guerra que o guri se torna cabra-macho, em que a diferença sexual é reencenada em um novo jogo de espelhos, em que graus de masculinidade e feminilidade complexificam a binariedade. O processo dos guerreiros é destrutivo e aniquilador, mas mesmo assim, reprodutor da casta belicosa e viril[6]. Por sua vez, na estetização da política da era da exposição da imagem do humano, é a exibição pública da destruição, a realização bélica, masculinista e fascista do assim chamado ser humano que asseguram a reprodução social dos últimos remanescentes (na condição de espectadores) pela guerra televisual a qual todos assistimos embasbacados, estupefatos.
Se o texto de Theweleit assim exposto pode parecer afastar o fascista de nós, no fundo o que ele busca e realiza em sua forma, no nível somático da recepção indigesta do leitor, é pôr às claras o entranhado processo de formação masculinista do enrijecimento do corpo[7] e conceitualizar a matriz do campo em que ocorreria a formação tecnofascista do corpo no âmbito do espectador global. A recepção televisionada, ou noticiada em jornais, de genocídios e de mortes de jovens negros nas periferias, aciona o mecanismo de reprodução da economia libidinal dos últimos remanescentes, antro da reprodução social pela morte do Outro cujo topos corporal é o fascismo da recepção.[8]:
Imagem 2 – Imagens de um drone israelense extraídas do vídeo de 29 de fevereiro de 2024, amplamente divulgadas pelos canais de comunicação. Mais de cem palestinos mortos enquanto esperavam, esfomeados, por caminhões de alimentos. Fonte: YouTube, vídeo de 29 de Fevereiro de 2024, nota 8.
Imagem 3 – Série de imagens publicadas pela Folha de São Paulo em 27 Março de 2025. Mostrando o drone em perseguição no Leste ucraniano. Fonte: Folha de São Paulo, supracitada.1
É justamente neste ponto, de regozijo televisual no “retorno parcial de uma condição de ser sujeito fascista” que recuperamos o prognóstico de Theweleit, que parte do desejo de enrijecimento e metalização do corpo masculino presente nos Freikorps de 1917, hospedado e “sustentado pelas máquinas”, rumo a 1989 e ao presente microeletrônico da hospedagem do host[9] que sustenta o assim chamado ser humano por meio de terminais computacionais[10] que, segundo Theweleit, armazenam nosso inconsciente e nossa alma.
Nossa tentativa aqui é rastrear um momento originário (no sentido benjaminiano, convencionado no alemão pelo prefixo Ur-) que permita iluminar a conversão desse excedente libidinal tecnológico escoado na visualidade da autodestruição pela tecnologia microeletrônica, conversão esta capaz de suplementar a volúpia prometida pela máquina de Jünger em outros meios de reprodução técnica. Seria possível dizer que, da reprodução por meio do guerreiro, a sobrevida da pulsão fascista no século XXI é a reprodução da obscenidade do espetáculo televisionada nos terminais humanos remanescentes? Os últimos que restam? Ou seja, a visualidade pornográfica da morte do Outro atestaria a uma sobrevivência do Eu, blindado ao sofrimento de si e do Outro, no tropos fascista conceituado por Theweleit? Nesse sentido, a categoria de fascismo da recepção, brevemente conceituada por Benjamin no pouco lido Cartas de Paris I, mereceria uma reconsideração. Afinal, acompanhamos, dia pós dia, novas antessalas de um fim globalmente adiado, na medida em que é localmente efetivado na aniquilação do outro, e globalmente televisualizado na afirmação do Eu detrás da tela. O efeito dessa televisualização do fim dos outros é a edificação pétrea do corpo fascista (nossa, sim, minha e sua, recepção)? Afinal, mais do que acompanhar a morte do outro, embrenhados compulsivamente nas malhas eletrônicas, gozando dessa hospedagem, reafirmamo-nos entre os últimos remanescentes[11]?
A lamurienta acústica de If do Pink Floyd “And if I go insane, please, don’t put your wires into my brain” [E se eu perder a cabeça, por favor, não insira cabos no meu cérebro; trad. nossa], como Friedrich Kittler sugere, é o que Daniel Paul Schreber “poderia muito bem ter clamado a seu deus ou engenheiro desconhecido” (2017, p. 116). E se os cérebros já estiverem cabeados nas redes eletrônicas, cabos estes que são propriedade privada de poucos num controle do fluxo informacional alienado e, portanto, sujeito à valorização do valor, dependente da transmissão informacional indiferente, seja ela da violência, da morte, do entretenimento, de imagens fofas, fotos de amigos, em série uma após a outra, entremeadas por propagandas de produtos muito bem direcionadas a nossos gostos e confortos?
- Daniel Paul Schreber[12], arauto do terceiro milênio
Imagem 4 – Paul Flechsig, o médico de Schreber, circa 1900. Fonte: commons.wikimedia.
É no delírio paranoico ou na teoria da libido de Daniel Paul Schreber, o mais louco dos loucos alemães (Kittler, 2017, p. 100) e jurista do início do XX, que podemos rastrear a extensa via de mão dupla entre fluxo de dados social (Deus/Flechsig no delírio de Schreber) e circuito neuronal (im)pessoal (as vias nervosas de Schreber). Segundo a tese do teórico das mídias Friedrich Kittler, que acompanhamos apenas no que concerne à sua análise de Schreber, o que Theweleit chama de armazenamento e catalogação da ‘alma’ sofreu um abalo sísmico nos novos sistemas de inscrição (Aufshrebesysteme) do XX: a psicofísica e a psiquiatria como ciência do cérebro teriam desemaranhado nossas elétricas vias nervosas, símiles de vias férreas ou, de modo presciente, dos novos canais de transmissão de dados. Na língua dos nervos de Schreber, em meados do século XX, teria ocorrido um “assassinato da alma”.
Encontramos essa antecipação e a visibilidade extremados problemas de excitação nervosa, exposição e imersão total ao fluxo de dados e informação. Posicionamos Schreber, retrospectivamente, na condição de terminal de um circuito tecnológico de escala global (a materialidade do conceito de globo é a infraestrutura oceânica e aérea da transmissão de dados, desde as tecnologias burocráticas do século XIX até a computação (Beniger, 1986), uma vez que o próprio autor é excitado a ouvir falarem de um “’princípio de telegrafia luminosa’ para designar a atração recíproca dos raios e nervos” (Schreber, 2021, p. 121, n. 58). Daniel Paul Schreber sofre de um colapso paranoico em meados de 1900, e formula um sistema totalizante, conspirador e apocalíptico que envolve a atração constante de Deus por seu corpo, a manipulação e influência ininterrupta de seus nervos, a manifestação do fim do mundo, a missão reprodutiva de Schreber emasculado, entre tantas outras formulações escritas na autobiografia desse paranoico. Na tese do filósofo e teórico da mídia Friedrich Kittler a loucura de Schreber e de outros loucos registra os efeitos de ruptura da tecnologia de ponta de todo um século. Kittler recusa as formulações psiquiátricas e psicanalíticas acerca de Schreber, a fim de ressaltar o papel do neurologista diretor do asilo em que fora internado, Paul Flechsig, no colapso desse doente dos nervos.
As Memórias de Schreber, nota Kittler, “descrevem com precisão neurológica todos os circuitos nervosos que se estendem por milhões de quilômetros e conectam o discurso de um deus cruel com os centros linguísticos do cérebro de Schreber”. É sabido que Freud já havia nomeado a psique humana num híbrido maquínico-anímico chamado “aparelho psíquico”, concebido como um “fluxo neuroelétrico de dados” e a alma como um “sistema de circuitos” (Kittler, 2017, p. 102). O cérebro de Schreber, dissecado autobiograficamente pelo autor e jurista, era propriedade do diretor do hospital psiquiátrico da Universidade de Leipzig, Paul Flechsig, seu host,responsável por tornar a psiquiatria uma ciência do cérebro. A vivacidade da endopercepção paranoica de Schreber, a excitação constante de seus nervos que o impede de dormir e o demanda a pensar ininterruptamente, é reduzida a fluxo neuroelétrico de dados e sua doença psíquica a uma doença nervosa (acatada diletantemente pelo próprio Schreber no título e ao longo de suas Memórias), problemas mentais então tidos problemas morais e de conduta, passam, na era da psiquiatria como ciência do cérebro, a serem considerados como colapsos dos nervos. Os milhões de quilômetros dos circuitos de nervos de Schreber são recebidos com entusiasmo pelo próprio rei da Saxônia, que, conversando com o dr. Flechsig, assemelha-os a redes ferroviárias e ao próprio reino da Saxônia. Como as malhas ferroviárias foram a grande revolução na compressão espacial do globo, a analogia nervos cerebrais e malha ferroviária apreende a relação entre terminal pessoal e fluxo global[13].
Nas palavras de Zvi Lothane, Flechsig, médico de Schreber, filho de uma família protestante e de um pai teólogo e padre, ao abraçar a ciência e a neuroanatomia “perdeu a alma e encontrou o cérebro” (Lothane, 1992, p. 204). O cérebro é, para Flechsig o órgão da alma e “produz o pensamento assim como o rim produz urina” (Lothane, 1992, p. 214), uma teoria absolutamente reducionista e organicista como essa, que localiza as funções da alma nas partes do cérebro, só pode considerar doenças psíquicas como lesões cerebrais: “Doenças nos centros de associação [i.e. os centros de pensamento] são a principal causa das doenças mentais, elas são o objeto próprio da psiquiatria” (Flechsig apud Lohtane, 1992, p. 216). A identificação da psiquiatria como ciência do cérebro não aconteceu sem consequências para seus pacientes. Então nomeado diretor da ala psiquiátrica da universidade de Leipzig, Flechsig conduziria sua pesquisa em neuroanatomia, o que na época exigia indispensáveis objetos “frescos” de pesquisa, ou seja, pessoas a beira da morte para que a lobotomia pudesse ser realizada instantes após o falecimento. Segundo Flechsig, a direção de um “asilo para pacientes incuráveis não estava nos planos” (Flechsig apud Lothane, 1992, p. 206). O incurável, para Flechsig, era o humano em vida. A cura possível apenas após a morte revelar o diagnóstico oculto sob a caixa craniana. O cérebro do cadáver é o objeto científico e sujeito a uma cura póstuma. Afinal, como o cérebro é envolto na carcaça craniana, a psiquiatria de Flechsig tem seu cul-de-sac terapêutico, o “levantamento de um diagnóstico pós-mortal” (Flechsig apud Kittler, 2017, p. 109). Não à toa, em uma das salas do hospital de Flechsig, havia uma coleção de cérebros em cubas, que poderiam ter inspirado o delírio de Schreber de que “Deus só se relaciona com cadáveres” (Lothane, 1992, p. 208). O espírito científico do neuroanatomista aparece como imenso sofrimento em Schreber no detalhamento endopsíquico escrito dos efeitos nele causados. O jurista paranoico se pergunta, em uma carta aberta que inicia suas Memórias, se Flechsig não o teria feito uma cobaia, não podendo “resistir à tentação de usar [Schreber de] objeto de experimentos científicos” (Schreber, 2021, p. 35). Nesse ponto, Kittler lê a declaração de um paranoico: “um psiquiatra que disseca em seus experimentos os nervos de seu paciente comete, em sentido exato, um ‘assassinato da alma’” (Kittler, 2017, p. 110), afinal, a introspecção e elaboração psíquica é banida em tempos de ciência dos nervos e, posteriormente, em tempos de CID (Classificação Internacional de Doenças) e DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).
Materialidade e extensão física dos nervos à parte, as clínicas psiquiátricas infelizmente também existem para os pacientes. Um interno pouco se importa com a extensão das vias nervosas e fibras cerebrais ou com o avanço do processamento de dados neuronais. Um interno jurista, como Schreber, que abordava os vivos com enunciados performativos e reinava com as sentenças que promulga, é rivalizado por um neuroanatomista que aborda pacientes sem o uso de palavras, excetuadas as prescrições de fármacos, e que reinava na extensão quilométrica-ferroviária das vias nervosas que disseca (Kittler, 2017, p. 110). Cabe mencionar que o colapso de Schreber decorre de um fracasso eleitoral e da sobrecarga nervosa no ofício de Senatpresident (algo como presidente de um tribunal de justiça), e é lido por alguém como Eric Santner como uma crise de investimento simbólico, na relação que o indivíduo tem com a autoridade social ou institucional (Santner, 1996, p. xi), essa relação é desarticulada do íntimo de Schreber, sujeito autoridade jurídica, e rearticulada por Flechsig na autoridade médica, reificando a consciência do paciente Schreber, objeto. Santner também entende seu trabalho de pesquisa como sendo guiado por “uma preocupação: onde há cultura de paranoia, o fascismo não está longe” (Santner, 1996, p. xiv).
Mas voltemos, a deposição da força perlocucionária do jurista diante do médico é sentida como impotência e influência psíquica no colapso de Schreber, e descrita como uma abusiva “conexão nervosa divina” que culmina no consequente “assassinato da alma” (Schreber, 2021, p. 56), afinal “se a alma tem tão somente uma realidade neuropsicológica, as clínicas de nervos universitárias […] são responsáveis pelo assassinato da alma” (Kittler, 1990, p. 294), clínicas onde as “almas se tornam sistemas de informação nervosa e curas se tornam experimentos” (Kittler, 1990, p. 295). O Deus perseguidor de Schreber é, segundo Kittler, o próprio dr. Flechsig, afinal, ambos, Deus e Flechsig veem, segundo Schreber, um “homem vivo só por fora”, não existindo relação com o “interior das pessoas vivas” (Schreber, 2021, p. 58). Deus “não conhecia verdadeiramente o homem vivo […], só tinha relações com cadáveres” (Schreber, 2021, p. 76, grifo no original).
É diante da impossibilidade craniana de ter seu corpo observado em vida, o que define “o diagnóstico pós-mortal como via régia em tempos sem eletroencefalografia”, que Schreber escreve suas Memórias, antecipando-se e escrevendo uma autoexumação preventiva de seu corpo, “[n]o lugar exato de um assassinato” (Kittler, 2017, p. 111). Contudo, para Kittler, o escrito de Schreber é a repetição diletante do discurso psiquiátrico/psicofísico, a abertura em vida do lado avesso do corpo psicótico enquanto objeto do conhecimento psiquiátrico. Em sua teologia paranoica, Schreber teoriza uma incapacidade de Deus examinar e perceber os movimento interiores contínuos dos nervos humanos, enquanto “após a morte, os nervos do ser humano, com todas as impressões que sofrera durante a vida, se apresentavam abertamente aos olhos de Deus” (Kittler, 2017, p. 112-113), ou seja, se apresentavam aos olhos do Deus neuroanatomista na autópsia post-mortem da vítima paranoica (Kittler, 2017, p. 114). Os nervos de Schreber cobrem a distância de um fluxo de dados entre neuroanatomia científica e endopercepção nervosa. Todo e qualquer pensamento próprio, subjetivo, é determinado na “mediação e arquivamento dos nervos” sob controle de Deus Flechsig (Kittler, 2017, p. 115).
No que Rogério Paes Henrique assinala, em Freud e a Narrativa Paranoica (2014, p. 58) sobre as vozes impostas de fora a Schreber, citando Lacan “‘Se o neurótico habita a linguagem, o psicótico é habitado, possuído, pela linguagem’, ou seja, enquanto o neurótico falaria, o psicótico seria falado pelo Outro”. Nas palavras de Schreber, “expressões e locuções, […] não saíram da minha cabeça, mas penetraram nela, faladas de fora para dentro” (Schreber, p. 184). É assim que Schreber surge como uma marionete operada sob influencia intensa e grotesca por um ventríloquo (Santner, 1996, p. 33), descobrindo que
o poder não apenas proíbe, diz ‘não’, mas trabalha para intensificar e ampliar o corpo e suas sensações. […] Schreber descobre que a autoridade simbólica em um estado de emergência é transgressiva, ela exibe uma obscena hiperproximidade ao sujeito: ela, como Schreber diz, demanda gozo. (Santner, 1996, p. 32)
É nesse ponto que o texto de Kittler converge com a nota de Theweleit e revela sua teoria da mídia, pois a rede de informação entre a totalidade cósmica divina e a interioridade endopsíquica nervosa são subsumidas num estranho e estreito juízo de Kittler: “A loucura é tecnológica”, e Deus, em uma teologia informada pela rede de informação psicofísica “é um deus dos canais de informação construídos por Marconi ou por Siemens. Já que, citando Schreber, “aparentemente nos vemos diante de uma situação semelhante à telefonia” (Schreber apud Kittler, 2017, p. 116).
O Schreber de Kittler é o arauto do terceiro milênio na medida em que “o que acontece é o real do século atual: o fluxo elétrico de dados” (Kittler, 2017, p. 116). O Outro que se impõe a Schreber, e a nós, é a infraestrutura técnica, antro de formação psíquica e corpórea das novas natimortas almas do terceiro milênio, destituídas dessa sua posição anímica, convertidos em sujeitos-terminais, formadas na recepção e repetição da escala global da telecomunicação, no “outro lado da linha”, como se diz ao telefone. Seria a excitação constante dos nervos de Schreber, sua incapacidade de dormir, e demanda por pensar e acatar as vozes do Outro a antecipação da nossa incapacidade de dormir sem o celular no brilho baixo, no imperativo 24/7 de produtividade e acompanhamento frenético de um cibertempo que se aproxima de nós, demandando nossa atenção, resposta imediata e presença constante? De nossa parte, o discurso diletante, escrito por Schreber, contudo, nos falta. Mas, em ambos, nós e Schreber, reina uma morte em vida, com os nervos à flor da pele.
Por fim, leiamos a descrição sobre seu sofrimento sob os sistemas de inscrição:
Mantêm-se livros ou outros tipos de anotações, nos quais já há anos são inscritos todos os meus pensamentos, todas as minhas expressões de linguagem, todos os meus objetos de uso pessoal, todas as coisas que possuo ou estão nas minhas proximidades, todas as pessoas com quem me relaciono etc. Não sei dizer com segurança quem é que se encarrega da inscrição. Como não posso imaginar a onipotência de Deus como inteiramente carente de inteligência, suponho que a inscrição é feita por seres aos quais é dada a forma humana, do tipo dos homens feitos às pressas, que ficam em corpos cósmicos longínquos, os quais por sua vez não carecem totalmente de espírito; para o ofício de inscrever, que realizam de modo totalmente mecânico, os raios colocam, por assim dizer, de passagem, a pena em sua mão, para que os raios que chegam depois possam entender o que foi inscrito. (Schreber, 2021, p. 128, trad. alterada).
Uma interpretação dessa experiência paranoica é a de que seriam as anotações médicas que inscreviam a operação do corpo de Schreber em arquivos e documentos, nas idas e vindas de enfermeiras e médicos (seres aos quais é dada a forma humana, de pena em mãos). Uma reconsideração desse texto de Schreber no terceiro milênio é, ao contrário do que o paranoico anuncia, extraordinariamente fácil de ser compreendida: todos nossos pensamentos são arquivados ou canalizados em nuvens e bancos de dados gigantescos, nossas expressões são organizadas e conduzidas pelo e para o Outro informático, todas as pessoas com quem nos relacionamos são perfis digitais que avançam e constroem sua fisicalidade viva, a inscrição destas, realizadas por aqueles que estão, nas palavras de Theweleit, a mexer com uma estética fascista da eletrônica, o capital vetorialista das redes de informação (Wark, 2022). Nesse sentido, Schreber, que condena o assassinato da alma por Flechsig, sente em seus nervos à flor da pele parte de seu ser inconsciente ser, e aqui citamos novamente a nota de Theweleit.
lançado no espaço na velocidade da luz e aterrissando em planetas alienígenas, mas ainda controlado por nossos computadores; as profundezas ocultas de nossas almas armazenadas, catalogadas e estruturadas em vastos bancos de dados, incontáveis componentes prototípicos que podem ser recuperados [recalled] em questão de segundos, contendo os mais profundos saberes [insights].
É o inconsciente que Lacan sugere ter o funcionamento similar, alguma coisa que não é completamente diferente, ao que Schreber teoriza como nervos divinos (Lacan, 1988, p. 37), nervos que Freud diz “não ser[em] outra coisa senão os investimentos libidinais concretamente representados e projetados para fora, e conferem ao seu delírio uma espantosa concordância com nossa teoria [da libido]” (Freud, 2010, p. 103), e Lacan complementa, “com seus desinvestimentos, reações de separação, influências a distância” (Lacan, 1988, p. 37). Freud ainda diz que a crença de Schreber no fim do mundo soa “quase como percepções endopsíquicas dos processos cuja existência supus, neste trabalho, como fundamento para uma compreensão da paranoia”[14] (Freud, 2010, p. 103). Enfim, as Memórias de um Doente dos Nervos contêm, segundo Kittler “a lei encarnada do inconsciente”, descrevendo “a mente como um sistema de informação” (Kittler, 1990, p. 291; 292) que vai e volta, terminalpessoal de um circuito tecnológico de escala global cujo imperativo circulando é o da excitação, na exploração estético-neurológica subordinada à indiferença próprias à informação e à forma-mercadoria.
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[1] Há uma diferença grande entre estes fascistas. Mas eles são todos executores. Pensamos nisso a fim de diferenciar a posição da recepção das massas no fascismo (posição cujo pressuposto é a de uma tolerância ao intolerável e/ou a de um regozijo com a destruição), brevemente teorizada por Walter Benjamin em Cartas de Paris I. Entre execução e recepção, a divisão comporta o fascismo como um movimento também presente na forma da recepção anestética (dessensibilizada), e não exclusivamente na forma de sua execução (para a qual reservar-se-ia a adjetivação ‘fascista’). Ainda, sobre a posição de executores, note-se a percepção que Rudolf Höss, encarregado da administração do massacre na máquina de morte de Auschwitz tinha de Eichmann, que não extraia seu prazer na supervisão, manutenção e administração da morte e do trabalhonos campos de concentração in loco, mas ordenava afastado, por detrás de sua mesa, ordens administrativas de extermínio (Theweleit, 1989 [1978], p. 234-235). Ambas essas formas de execução administrativa do fascismo são diferentes das de Ernst von Salomon que experimenta o prazer de descarregar sua arma em substituto à armadura corpórea do soldado, funcionando como seu ego a mantê-lo inteiro. Salomon se regozija com o dilaceramento do interior de corpos vivos, tendo no chacoalhar do mecanismo metálico da arma uma correspondência com as vibrações da morte. A execução fascista aparece aqui em, no mínimo, três sentidos: da administração in loco do trabalho e do massacre, da distanciada organização burocrática do extermínio, e da carnificina direta (Theweleit, 1989 [1978], 179-180). Há uma gênese comum, segundo Theweleit, das formas de execução fascista e da formação da masculinidade alérgica à feminilidade constitutiva do corpo, e da masculinidade homicida às alteridades represadas em si. Para uma crítica à imagem de Rudolf Höss produzida no filme Zona de Interesse, ver O vomito de Rudolf Hoss não é bile moral, disponível em: https://ruidez.home.blog/2024/09/07/o-vomito-de-rudolf-hoss-nao-e-bile-moral-critica-de-zona-de-interesse/
[2] As versões de tradução dos trechos em inglês são versões nossas de tradução do texto.
[3] Não avançaremos aqui com essa tese presente nos dois volumes do texto de Theweleit, cabe apenas apontar, como futuro desdobramento deste trabalho, e como pressuposto somático ao terror branco fascista, o conciso e não menos assustador resumo do trabalho do sociólogo alemão no prefácio que Anson Rabinbach e Jessica Benjamin redigem: “Dois tipos básicos de corpos exemplificam a metafísica corporal no coração da percepção fascista. Por um lado, há o mole, fluido, enfim, o líquido corpo feminino que é a quintessência negativa do ‘Outro’ que espreita internamente o corpo masculino. É a fonte subversiva de prazer ou dor que deve ser expurgada ou selada. Por outro lado há o duro, organizado e fálico corpo esvaziado de todas as vísceras internas e que encontra a sua apoteose na máquina. Essa máquina-corpo é a reconhecida ‘utopia’ do guerreiro fascista. […] A preocupação do guerreiro fascista com os perímetros do seu corpo é um tipo de destripamento, descorporação, dessensualização, o que poderíamos chamar de ‘sensório anti-sensual‘. A utopia do guerreiro de corpo mecanizado é, portanto, erigida contra o self feminino interior. (Theweleit, 1989, p. xix-xx, grifos e tradução nossas)
[4] “A guerra tem sua beleza porque inicia a tão sonhada metalização do corpo humano”. Versão de tradução disponível em: https://ruidez.home.blog/2024/07/16/estetica-futurista-da-guerra-t-m-marinetti/
[5] “[P]ela fala, pela caneta, pelo pincel, pela reprodução popular das obras primas, pelas inteligentes e edificantes imagens que possam espalhar em profusão e serem expostas nas mais humildes comunas da França, o comitê se esforçará pela nossa regeneração, a inauguração do luxo comunal e os esplendores do futuro da República Universal.” (grifo nosso) Versão de tradução disponível em: https://ruidez.home.blog/2024/09/20/manifesto-da-federacao-dos-artistas-da-comuna-de-paris-1871/
[6] A diferença sexual perpassa o campo funcional da atividade/passividade, numa bipotencialidade constitucional. Portanto, professores não-autoritários são vistos, pela lente da hierarquia militar, como a impotência detendo o poder – ou seja, ridículos.
[7] William Reich teoriza a ontogênese do encouraçamento, blindagem e enrijecimento, sublinhando sua natureza socio-economica e patriarcal em A Função do Orgasmo: “A estrutura do caráter do homem moderno, que reflete uma cultura patriarcal e autoritária de seis mil anos é tipificada por um encouraçamento do caráter contra a sua própria natureza interior e contra a miséria social que o rodeia. […] O homem alienou-se a si mesmo da vida, e cresceu hostil a ela (Reich, 1975, p. 11).
[8] A dificuldade na breve exposição desse ponto nos é suprida pelo relato do crítico de arte Hal Foster diante das imagens televisionadas da Guerra do Golfo: Tal foi, para mim, o Efeito CNN na Guerra do Golfo: repelido pela política, fiquei grudado nas imagens, prisioneiro pela excitação psicotecnológica, assim como a bomba inteligente e o espectador se prendem como uma coisa só. Uma excitação oriunda da tecnomaestria (minha singela percepção humana convertida em visão de supermáquina, capaz de ver o que destrói e de destruir o que vê), mas também uma excitação oriunda de uma dispersão fantasiosa do meu próprio corpo, da minha própria condição de sujeito. É claro que meu corpo não explodiu quando as telas das bombas inteligentes se apagaram. Pelo contrário, saiu reforçado: num clássico tropo fascista, meu corpo, minha condição de sujeito, afirmaram-se na destruição de outros corpos. Nesse tecnosublime, portanto, há um retorno parcial de uma condição de ser sujeito fascista, que ocorre também no nível da massa, pois esses acontecimentos são extremamente mediados e produzem uma coletividade psíquica – uma nação psíquica, por assim dizer, que também é definida contra a alteridade cultural tanto interna como externa. (Foster, 2017, p. 205-206)
Pensamos, como paralelo mais recente, no artigo de Patricia Campo Mello para a folha sobre o piloto de drone ucraniano Yenot, entrevistado após localizar, perseguir e explodir seu drone kamikaze em um soldado russo, orientado por “três telas e um joystick para movimentar o FPV” (first-person-view, visão em primeira pessoa). A sequência de imagens exibida no artigo da folha é sinistra: o soldado na moto, a explosão, o soldado caído, na posição de alguém que ajusta o corpo para a foto e o olhar para o clique mortal do drone, e posteriormente a imagem de seu corpo morto, por último, segundo o texto, o vídeo é interrompido pelo chuvisco de um vídeo fora do ar. A imagem seguinte do artigo é a de Yenot, que parece estar jogando algo com um óculos de VR, realidade virtual, e controle joystick. Haveríamos ainda de levar a sério que Yenot recusa o paralelo entre controlador de drone kamikaze e videogame. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/03/drones-dominam-frentes-de-batalha-na-ucrania-e-ninguem-esta-a-salvo-na-superficie-veja-video.shtml
[9] Do inglês, hóspede, mas na linguagem da tecnologia da informação, o dispositivo emissor e receptor de dados – e.g. um site como o ‘x.com’, um servidor, ou um protocolo DNS como o ‘.gov.br’ ou o ‘.org’. Contra as leituras de uma horizontalidade total da internet (cujo enfoque material se dá nos protocolos de TCP/IP, a comunicação lateral, rizomática, entre os terminais), Alexander Galloway mostra como a propriedade privada do DNS cobre rígidas hierarquias dos servidores (Protocol).
[10] O conceito de terminal é próprio à filosofia de Jean Baudrillard. Segundo o autor de Troca Simbólica e Morte, o “sujeito é um terminal, tanto ao final de da exaustão da linha Ocidental, quanto um nó de input-output na rede [de informação]” (Fisher, 2018, p. 24). É crucial na metafísica do código de Baudrillard o entendimento de que o sujeito, plugado nas linhas de comunicação cibernética do capitalismo tardio, habita um espaço de terror e êxtase com a hiperproximidade tátil da informação, o estado do sujeito evanescente é de um “terror próprio ao esquizofrênico: uma proximidade exagerada a todas as coisas, a promiscuidade suja com tudo que toca, investe e penetra sem resistência, sem mais a aura da proteção privada” (Fisher, 2018, p. 13-14, adaptado). A questão aqui é o fim do sujeito burguês, cujas característica alienação, anomia, solidão cessam na obscena proximidade do mundo em seu terminal televisual. O conceito de obsceno em Baudrillard será objeto de discussão com relação ao espetáculo de Debord. A presumida possibilidade de distância do segundo, rejeitada pelo primeiro, e a necessidade crítica da distância certa serão pensadas à luz do debate inaugural acerca dessa relação nas correspondências de Benjamin e Adorno. O estupor da facticididade de Benjamin nos parece correlata à obscenidade de Baudrillard, e a mediação em Adorno, a margem de respiro presumida no conceito de espetáculo de Guy Debord. A presumida necessidade da mediação, a tomada de uma distância certa, determinada, para a crítica, será posta em questão à luz da imanente obscenidade do espetáculo e do espetáculo do obsceno no terceiro milênio, quando “o mundo inteiro de desdobra no espaço doméstico [at home], sem precisar sair da televisão” (Deleuze apud Fisher, p. 66). No obsceno, “todo universo se desdobra arbitrariamente nas telas domésticas (toda informação inútil do mundo que nos inunda, como uma pornografia microscópica do universo, inútil, excessiva, assim como o close-up sexual de um filme pornô” (Baudrillard apud Fisher, p. 66). Em Baudrillard, a pornografia é o modelo da cultura obscena.
[11] Essa é uma das teses de Frederic Jameson acerca do protofascismo: a ansiedade de proletarização (gostaria ainda de sugerir, em tempos de precariedade e guerra do mundo do trabalho, ansiedade de lumpenproletarização, é mantida em equilíbrio pelo aniquilamento manifesto ou latente de pessoas em condição de dor e sofrimento piores do que nós. Havendo o Outro encardido mantendo nosso Eu higienizado, estável, edificamos nossa situação em um plano de estabilidade. (cf. https://ruidez.home.blog/2024/07/10/o-que-e-protofascismo-traducao-de-fredric-jameson/ ). Essa é também a tese do psicólogo Christoph Dejours, que analisa a tolerância do sofrimento intolerável nas fábricas francesas: “comentando o caso de suicídio de um técnico de empresa industrial, Dejours sugere que o esquecimento do suicídio do colega pelos outros trabalhadores ocorreu devido ao acionamento de uma “defesa que funciona como um anestésico contra a própria emoção, mas supõe também ‘vacinar-se’ contra a percepção do sofrimento alheio, para não correr o risco de suspender a amnésia e ser tomado de angústia” (Dejours, 2006, p. 46, grifo nosso). Isso se deve, em parte, à espontânea vergonha em protestar o próprio sofrimento, mostrar-se vulnerável, um corpo vivo em carne e osso, que sente, sofre e dói, quando outras pessoas passam por um sofrimento que seria compreendido como sendo mais agudo e dolorido que o de si. Alguém em regimes exaustivos de trabalho, condução, cuidado doméstico e sono precário “não pode reclamar” como diz o jargão popular, pois há quem esteja pior (o tal do pare de reclamar, pelo menos você tem onde morar, o que comer, etc.). A partir de Dejours, podemos dizer que a não-elaboração do sofrimento de si produz uma cognição somática de tolerância às condições adversas, que predispõe o sujeito ao não-reconhecimento do sofrimento do outro. É que a “impossibilidade de exprimir e elaborar o sofrimento no trabalho constitui importante obstáculo ao reconhecimento do sofrimento dos que estão sem emprego” (Dejours, 2006, p. 46, grifo no original). O estado de exaustão decorrente de um regime de trabalho precarizado pelo menos não é o desemprego. São mecanismos de defesa psíquicos que, no fundo, são de uma tolerância ao intolerável” (MICKUS, 2025, p. 79).
[12] O autor Schreber, contudo, imediatamente surge vinculado ao autor Freud, numa mesma rede de informação. Afinal, o “caso Schreber” é o caso Freud. Em seu texto [nome do texto], Freud argumenta por uma imensa intensidade de libido homossexual que acarreta no colapso paranoico de Daniel Paul Schreber. Contudo, como aponta Eric Santner, Freud foi incapaz de entender o vínculo entre a explosão de estímulos homossexuais e a nomeação de Schreber a presidente da Corte Suprema da Saxonia (Santner, 1996, p. 58, trad. nossa). O único diagnóstico psicanalítico textual de Freud, que analisa o caso Schreber a partir de seu escrito Memórias de um Doente dos Nervos e não por meio da fala de Schreber em transferência com o psicanalista, infere a dinâmica homossexual reprimida de Schreber com o pai, transformado pulsionalmente na figura de seu médico Flechsig, como a tensão pulsional que produz o colapso paranoico de Schreber. A figura do pai de Schreber, contudo, não é a de qualquer pai burguês. Mortiz Schreber era renomado na Saxônia, lido por muitos, a ponto de ter seu nome em jardins na Alemanha até o presente dia, Schrebergartner. Portanto, o pai de Schreber se alçava à uma figura divina, transfigurável, devido a um excedente de poder e influencias paternas, à Deus, como ocorre no delírio paranoico de Schreber. A análise de Eric Santner, por sua vez, volta-se para a crise de investimento simbólico, que seria característica da modernidade. Isso significa que Schreber foi submetido a uma demanda pulsional de identificação com atos performativos da lei jurídica (sua nomeação), e da lei médica (sua cura por meios externos). Ainda para Freud, contudo, a economia psíquica de Schreber já estava predisposta em sua vinculação libidinal com seu pai, e teria sido transferida para a figura de Flechsig, um médico indiferente e, assim, de posse de poderes supernaturais e uma autoridade persecutória e abusiva dos nervos do seu paciente (Santner, 1996, p. 59).
[13] Nos encontramos com a pergunta de Schivelbusch em The Railway Journey [A Jornada Ferroviária]: “Será que a ferrovia, o acelerador da Revolução Industrial, e o computador, ocupam diferentes pontos ao longo/na mesma trajetória de evolução das máquinas?” (Schivelbusch, 1977, p. xvii, trad. nossa)
[14] [Nota pessoal] Freud dirá, em seu escrito sobre Daniel Paul Schreber (caso que não redige a partir do espaço clínico e da cura pela fala, mas pelas Memórias de um Doente de Nervos, autobiográfica do colapso do próprio Schreber), haver uma semelhança notável entre as percepções endopsíquicas de Schreber com sua própria teoria da libido e da paranoia. O psicanalista se defenderá, dizendo ter encontrado a teoria antes de Schreber tê-la vivenciado e se perguntando “se estaria contida na loucura mais teoria do que agrada [a Freud] ou se na loucura [de Schreber] estaria contida uma verdade do que outros consideram crível” (Freud apud Kittler, 2017, p. 102). Schreber percebe “no próprio corpo ou cérebro aquilo que, na psicanálise, permanece substrato hipotético às margens da teoria, essa teoria não é mero delírio […]. O cérebro de Schreber é a prova da teoria de Freud” (Kittler, 2017 p. 104).