Primeira foto da Terra de um Satélite Metereológico, TIROS-1. Abril de 1960. Fonte: https://www.nasa.gov/image-article/first-photo-of-earth-from-weather-satellite-tiros-1/
Em um texto de 1917 chamado “Uma dificuldade da Psicanálise”1, Freud destaca a resistência e a aversão afetiva do homem à teoria da libido psicanalítica. O autor destaca outros dois momentos da pesquisa científica que afrontaram o narcisismo geral da humanidade, o cosmológico (Copérnico), o biológico (Darwin). No último momento, no psicanalítico, se demonstra a “significação psíquica da sexualidade e da inconsciência da vida mental” (Freud, p. 187). Na íntegra, os três momentos de reviravolta narcísica (os títulos que encabeçam as citações são meus):
cosmologia anti-antropocêntrica:
“O ser humano acreditou, no início de sua pesquisa, que sua morada, a Terra, achava-se imóvel no centro do universo, enquanto o Sol, a Lua e os planetas moviam-se ao seu redor em trajetórias circulares. Nisso acompanhou, de modo ingênuo, as impressões de seus sentidos, pois não sente o movimento da Terra e, sempre que pode olhar livremente à sua volta, vê-se no centro de um círculo que abrange o mundo exterior. A posição central da Terra era garantia de seu papel dominante no universo, e parecia condizer muito bem com a tendência humana de sentir-se dono deste mundo.
O aniquilamento desta ilusão narcísica está relacionado, para nós, ao nome e à obra de Nicolau Copérnico, no século XVI. Muito antes dele, os pitagóricos haviam questionado a posição privilegiada da Terra, e Aristarco de Samos havia declarado, no século III a. C., que a Terra era bem menor que o Sol e se movimentava em torno deste. A grande descoberta de Copérnico foi feita antes dele, portanto. Quando ela teve reconhecimento geral, porém, o amor-próprio humano experimentou sua primeira afronta, aquela cosmológica.”
biologia inumana:
“No curso de sua evolução cultural, o homem se arvorou em senhor das demais criaturas do reino animal. Não satisfeito com esse predomínio, começou a criar um abismo entre sua natureza e a deles. Negou que possuíssem razão e dotou a si mesmo de uma alma imortal, invocando para si uma procedência divina, que lhe permitiu romper os laços com o mundo animal. É digno de nota que tal presunção ainda seja desconhecida do bebê, assim como do homem primitivo e primevo. Ela resulta de uma evolução posterior, mais ambiciosa. No estágio do totemismo, não repugnava ao primitivo que a sua tribo remontasse a um antepassado animal. Nos mitos, que contêm os precipitados desse antigo modo de pensar, os deuses assumem formas animais, e a arte dos primórdios apresenta os deuses com cabeças de animais. A criança não vê diferença entre sua própria natureza e a do animal; não se surpreende de que os animais pensem e falem nos contos de fadas; desloca para um cão ou um cavalo o sentimento de medo que tenha em relação ao pai, sem pretender com isso depreciar o pai. Somente quando se torna um adulto ela se acha a tal ponto afastada dos animais que insulta seres humanos com o nome de um animal.
Todos nós sabemos que há pouco mais de meio século as pesquisas de Charles Darwin, de seus colaboradores e precursores, puseram fim a essa presunção do ser humano. O homem não é algo diferente nem melhor que os animais; é ele próprio de origem animal, mais aparentado a algumas espécies, mais distante de outras. Suas conquistas posteriores não puderam apagar testemunhos da equivalência, tanto na estrutura do corpo como na disposição psíquica. Esta é a segunda afronta, aquela biológica, ao narcisismo humano.”
psicologia inóspita:
“Embora humilhado exteriormente, o homem sente-se soberano em sua própria psique. Ele criou, em alguma parte do âmago de seu Eu, um órgão inspetor, que vigia seus impulsos e ações, para que coincidam com suas exigências. Não sucedendo isso, são implacavelmente inibidos e recolhidos. A percepção interna do Eu, a consciência, informa-o sobre todos os eventos significativos da atividade psíquica, e a vontade, orientada por essas notícias, executa o que o Eu ordena, modifica o que tenderia a realizar-se autonomamente. Pois a psique não é algo simples, é antes uma hierarquia de instâncias superiores e subordinadas, uma profusão de impulsos que, independentes uns dos outros, lutam pela realização, de modo correspondente à multiplicidade de instintos e de relações com o mundo externo, que frequentemente se antagonizam e são incompatíveis. O funcionamento requer que a instância mais alta tenha ciência de tudo o que se prepara, e que a sua vontade possa penetrar em todo canto, a fim de exercer sua influência. Mas o Eu se sente seguro tanto da fidelidade e completude das informações quanto da viabilidade de suas ordens.
Em determinadas doenças, e justamente nas neuroses que estudamos, as coisas são diferentes. O Eu se sente mal, depara com limites a seu poder em sua própria casa, a psique. De repente surgem pensamentos que não se sabe de onde vêm; tampouco se tem como expulsá-los. Esses hóspedes desconhecidos parecem até mais poderosos do que os submetidos ao Eu; resistem a todos os meios coercivos da vontade, aprovados em muitas ocasiões, e permanecem imperturbados ante a refutação lógica, indiferentes ao desmentido da realidade. Ou ocorrem impulsos que parecem os de outro indivíduo, de modo que o Eu os renega, mas tem de receá-los e tomar precauções contra eles. O Eu diz a si mesmo que se trata de uma doença, uma invasão estrangeira, e aumenta a vigilância, mas não pode entender por que se sente paralisado de maneira tão estranha.
A psiquiatria contesta, naturalmente, que esses casos envolvam espíritos maus que se infiltraram na psique, mas limita-se a dizer, dando de ombros: “Degeneração, disposição hereditária, inferioridade constitucional!”. A psicanálise procura esclarecer essas inquietantes doenças; ela empreende pesquisas longas e acuradas, produz conceitos auxiliares e construções científicas, e pode enfim dizer ao Eu: “Nada estranho se introduziu em você; uma parte de sua própria psique furtou-se ao seu conhecimento e ao domínio de sua vontade. Por isso é tão fraca a sua defesa; uma parte de sua força luta contra a outra parte, você não pode reunir toda a sua força, como se lutasse contra um inimigo externo. E não é sequer a parte pior ou menos importante de suas forças psíquicas que se opôs de tal forma e tornou-se independente de você. A culpa, devo dizer, é sua mesmo. Você superestimou sua força, ao crer que podia fazer o que quisesse com seus instintos sexuais, sem considerar minimamente as in- tenções deles. Então eles se rebelaram e tomaram seus próprios obscuros caminhos, a fim de escapar à repressão, e criaram seus próprios direitos, de uma maneira que você não pode aprovar. Como realizaram isso e que vias percorreram você não pôde saber; apenas chegou ao seu conhecimento o resultado desse trabalho, o sintoma que você percebe como sofrimento. Você não o reconhece como derivado de seus próprios instintos rejeitados, e não sabe que ele é a satisfação que os substitui.
“Mas todo o processo é tornado possível apenas pelo fato de você também se equivocar em outro ponto importante. Você acredita saber tudo o que de relevante se passa em sua mente, [Seele: alma] já que sua consciência o informa a respeito disso. E, quando não recebe notícia de algo na mente, supõe, com muita confiança, que aquilo não se acha nela. Você chega a identificar ‘mental’ e ‘consciente’, isto é, conhecido por você, não obstante as claras evidências de que em sua vida mental deve ocorrer muito mais do que o que pode tornar-se conhecido para a sua consciência. Então aprenda uma coisa nesse ponto! O que é mental, em você, não coincide com o que lhe é consciente; algo suceder em sua mente e você ter notícia dele são coisas diferentes. Admito que habitualmente o serviço de informações de sua consciência basta para suas necessidades. Você pode acalentar a ilusão de saber tudo o que é mais importante. Mas em alguns casos, como no conflito instintual mencionado, esse serviço fracassa, e sua vontade não vai além de seu saber. Em todos os casos, porém, as informações de sua consciência são incompletas e, frequentemente, suspeitas; também acontece de você ter notícia dos eventos apenas depois de consumados, e já não poder modificá-los. Ainda quando você não está doente, quem pode avaliar o que age em sua alma, coisas de que você não vem a saber ou de que é informado erradamente? Você se comporta como um rei absoluto, que se contenta com os dados fornecidos por seus principais cortesãos e não desce até o povo para escutar a voz dele. Volte-se para si, para suas profundezas, e conheça antes a si mesmo; então compreenderá por que tem de ficar doente, e conseguirá talvez não ficar doente”.
Isso a psicanálise quis ensinar ao Eu. Mas esses dois esclarecimentos, de que a vida instintual da sexualidade não pode ser inteiramente domada em nós, e de que os processos mentais são inconscientes em si e apenas acessíveis e submetidos ao Eu através de uma percepção incompleta e suspeita, equivalem à afirmação de que o Eu não é senhor em sua própria casa. Juntos eles representam a terceira afronta ao amor-próprio humano, que eu chamaria de psicológica. Não surpreende, portanto, que o Eu não demonstre boa vontade com a psicanálise e se recuse obstinadamente a dar-lhe crédito.”
[O texto na íntegra é curtíssimo e vale a pena ser lido. Omiti o último parágrafo a fim de manter a estrutura tripartida feridas narcísicas, mas nele, Freud refere-se a filosofia de Schopenhauer como precursora, pois atenta à importância das pulsões sexuais e da vida psíquica (a ‘vontade’ inconsciente no filósofo’). Schopenhauer já teria afirmado, portanto, as teses da psicologia inóspita, ainda que em termos abstratos. Restou à psicanálise demonstrá-las e desenvolver uma técnica apta a ajudar no processo de cura de alguns tipos de neuroses]
- As citações deste texto são extraídas da tradução da Companhia das Letras por Paulo César de Souza no volume 14 das Obras Completas de Sigmund Freud, “História de uma Neurose Infantil (‘O Homem dos Lobos’), Além do Princípio do Prazer e outros textos de 2010.
A única glosa está entre colchetes a opção de tradução de Seele por ‘mente’. Deixei assinalada a possibilidade de tradução por ‘alma’ – que o próprio tradutor da edição ressalta em nota. Isso se dá face à atribuição de Kittler de uma ‘morte da alma’ do ‘assim chamado ser humano’ pela psicofísica e pela teoria da informação em meados de 1900 e, crucialmente, pela reafirmação da alma na vida psíquica pela psicanalista Julia Kristeva em Novas Mazelas da Alma, cuja elaboração ativa pela linguagem é outorgada, no século XX rumo ao terceiro milênio a fármacos e imagens de desejo. ↩︎



