No Epílogo da Reprodutibilidade Técnica [1936], Walter Benjamin nota como a apologia fascista da guerra teve, por necessidade, que ser amparada por uma estetização da guerra para se realizar. Ele apresenta o esforço de estetização por meio do manifesto sobre a guerra colonial na Etiópia aqui traduzido na íntegra, que o autor cita parcialmente fragmentos da abertura, da proposição estética 2, 3, 4 e parágrafo final.
Para aliviar a inclinação emancipatória das forças produtivas (da maquinaria em sua tendência à automação e abolição do trabalho), a guerra imperialista apareceu como solução ao excedente de energia revolucionária depositada nas novas tecnologias. Para manter as relações de propriedade, o capital imperialista justificou do ponto de vista estético (permitindo a pura expressão e manifestação) a “violação das massas” (enquanto impedia o que lhes é de direito: a abolição do trabalho) e a “violação da máquina” (enquanto impedia o que lhe é inerente: a abolição do trabalho humano, mantendo a subsunção real do trabalho ao capital). A isso se prestou, entre outras coisas, o futurismo de Filippo Tommaso Marinetti. Esse ponto de vista é expresso no já conhecido Manifesto Futurista, de 1909, a que Marinetti faz referência, abaixo, no “manifesto sobre a guerra colonial na Etiópia”, que Walter Benjamin menciona no epílogo da Reprodutibilidade Técnica. O manifesto, publicado na La Gazetta del Popolo em Outubro de 1935, tem como título “Estética futurista da guerra”.
A tradução abaixo é bem descuidada e rasteira (não conheço a língua italiana e me apoiei diretamente no linguee, google translate e chatgpt, por conta disso, publico o original na sequência)
ESTÉTICA FUTURISTA DA GUERRA
Contra todos os tradicionais detratores da guerra moderna considerada antiestética nós poetas e artistas futuristas que há vinte e sete anos a proclamamos “a única higiene do mundo”, constatamos que:
- A guerra tem sua beleza porque funde e acelera harmoniosamente a Força e a Bondade.
A Força tende à crueldade e à injustiça.
A Bondade tende à fraqueza e à covardia.
Em vez de destruir esses dois elementos, é necessário alterná-los ou combiná-los na guerra, onde a Força cruel é contida pela Bondade.
A guerra, sendo acelerada pela máquina, acelera e encurta a Força cruel enquanto alonga e distribui a Bondade.
A Bondade, assim carregada de força, gera solidariedade e generosidade.
A Força na guerra deve ser inflamada e aquecida por uma ideia superior ou por um amor desinteressado. Os soldados mercenários estão fora de qualquer estética de guerra, assim como as tropas comandadas pelos turcos que se recusaram a lutar e se renderam apenas porque não foram pagas no início da batalha. - A guerra tem sua beleza porque realiza o homem mecânico, aperfeiçoado pela máscara de gás, pelo megafone aterrorizante, pelo lança-chamas, ou fechado no pequeno tanque que estabelece o domínio do homem sobre a máquina subjugada.
- A guerra tem sua beleza porque inicia a tão sonhada metalização do corpo humano.
- A guerra tem sua beleza quando adorna um campo florido com as orquídeas flamejantes das metralhadoras apontadas umas contra as outras entre as árvores dos lados opostos.
- A guerra tem sua beleza quando reúne em sinfonia tiros de fuzil, canhões, pausas de silêncio, ecos, canções de soldados, perfumes e odores de putrefação.
- A guerra tem sua beleza porque sabe remodelar genialmente as paisagens terrestres e marinhas com suas artilharias aéreas e seus torpedos escultores.
- A guerra tem sua beleza quando cria novas arquiteturas e novos complexos, como o grande tanque com uma escolta de audaciosos avançando sob proteção, ou como as geometrias voadoras de esquadrilhas aéreas e espirais de fumaça de aldeias incendiadas, grandes nuvens de poeira de construtores de estradas ou como o estrondoso fogaréu alinhado de 50 metralhadoras competindo com o eco de 50 sonoras gargalhadas.
- A guerra tem sua beleza porque, ocasionalmente, consegue superar em violência, entusiasmo lírico e grandiosidade os cataclismos telúricos e as batalhas de anjos e demônios.
- A guerra tem sua beleza porque cura definitivamente os homens do medo individual e do pânico coletivo, com um refinamento e uma estilização do heroísmo.
- A guerra tem sua beleza porque opera o rejuvenescimento galhardo do corpo masculino e intensifica o fascínio do corpo feminino.
- A guerra tem sua beleza porque serve à grandeza da grande Itália Fascista.
Poetas e artistas futuristas e vanguardistas combatentes ou prontos para combater, lembrem-se desses princípios de uma estética da guerra que iluminará seus esforços para extrair uma nova poesia e uma nova plástica de seu heroísmo, ofereço ao Futuro.
F. T. Marinetti
Original em italiano:
Contro tutti i tradizionali denigratori della guerra moderna dichiarata antiestetica noi poeti e artisti futuristi che ventisette anni fa la proclamammo “sola igiene del mondo,, constatiamo ch
1º La guerra ha una sua bellezza perché fonde e velocizza armoniosamente la Forza e la Bontà
La Forza tende alla crudeltà e all’ingiustizia
La Bontà tende alla debolezza e alla viltà
Invece di distruggere questi due elementi occorre alternarli o combinarli nella guerra dove la Forza crudele viene frenata della Bontà
La guerra essendo velocizzata dalla macchina velocizza e accorcia la Forza crudele mentre allunga e distribuisce la Bontà
La Bontà cosi caricata di forza genera la solidarietà e la generosità
Ocorre la Forza in guerra sia accesa e riscaldata da un’idea superiore o da un amore disinteressato I soldati mercenari sono fuori da ogni estetica di guerra come quelle mehalle comandate dai turchi che rifiutarono di battersi e si arresero soltanto perché non pagate all’inizio della battaglia
2º La guerra ha una sua bellezza perchè realizza l’uomo meccanico perfezionato dal muso antigas dal megafono terrorizzante dal lacinafamme o chiuso nel piccolo carro armato che stabilisce il dominio dell’uomo sulla macchina asservita
3º La guerra ha una sua bellezza perchè incominicia la sognata metallizzazione del corpo umano
4º la guerra ha una sua bellezza quando completa un prato florito colle vampanti orchidee delle mintragliatrici puntate l’una contro l’altra fra gli alberi al lati opposti
5º La guerra ha una sua bellezza quando sinfonizza fucileria cannonate pause di silenzio echi canti di soldati profumi e odori di putrefazioni
6º La guerra ha una sua bellezza perchè sa riplasmare genialmente i paesaggi terrestri e marini con le sua artiglierie ispirate e i suoi siluri scultori
7º La guerra ha una sua bellezza quando crea nuove architetture e nuovi complessi come il grande carro armato con scorta di arditi avanzanti al riparo o come le volanti geometrie di aeroplani palloni frenati spiralici fumi di villaggi incendiati polveroni altisimi di construttori di strade o come i martellanti fuochi schierati di 50 mitragliatrici in gara con 50 risate di echi sonori
8º La guerra ha una sua bellezza perchè riesce di tanto in tanto a superare in violenza entusiasmo lirico e grandiosità i cataclismi tellurici e le battaglie d’angeli e di demoni
9º La guerra ha una sua bellezza perché cura definitamente gli uomini dalla paura individuale e dal panico collettivo con un raffinamento e una stilizazione dell’eroismo
10º La guerra ha una sua bellezza perchè opera il ringiovanimento gollardico del corpo maschile e intensifica il fascino del corpo della donna
11º La guerra ha una sua bellezza perché serve la grandezza della grande Italia Fascista
Poeti e artisti futuristi e avanguardisti combattenti o pronti a combattere ricordatevi questi principi di un’estetica della guerra vi illumino nello sforzo di estrarre una nuova poesia e una nuova plastica dal vostro eroismo offerto al Futuro.
T. F. Marinetti








