“Um saber inconsciente sussurra para as crianças aquilo que nesse caso é reprimido pela educação civilizatória, e é esse saber que está em questão: a miserável existência física inflama-se em direção ao interesse supremo que não é muito menos reprimido, em direção ao ‘O que é isso?!’ e ao ‘Para onde isso leva?’
– Theodor Adorno, p. 303
A penetração das relações de dominação é atestada de vez em sempre na história da filosofia. De saída, poderíamos nos orientar por ela em Aristóteles o qual não só cinde os humanos entre cidadãos e escravos1 (ARISTÓTELES, 2006, p. 1-19), como atribui a cada parte da divisão social uma causa específica da organização política. O governante ou os governantes, detém a causa final, a mais excelente de todas, dispondo da organização das mediações para a finalidade última da política, o bem-comum, a felicidade. As mediações para tanto, o princípio de movimento, aparecem nos trabalhadores e escravos, a causa eficiente da política conduzida pelo governante como meio para a excelência final.
As relações de servidão são atualizadas no feudalismo sob o mesmo princípio, mas agora entre servos e senhores. Novamente, a doutrina das quatro causas aparece politicamente na divisão social: servos são a causa eficiente, senhores organizando-a sob a causa final.
Rearranjam-se mais uma vez as relações de dominação com a assim chamada acumulação primitiva, que em termos rousseauístas é apresentada, no segundo discurso, à maneira hipotética, do seguinte modo: “O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer, isto é meu, e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo.”2 (ROUSSEAU, 1999, p. 87)
No entanto, ao abreviarmos a finalidade da política enquanto a justiça, a virtude ou a felicidade, a desilusão é a primeira a entristecer. Para compreender a servidão voluntária, dependemos daquele realismo político herdado de Trasímaco e Maquiavel, que nos leva a Nietzsche e Lyotard. Os primeiros curtos-circuitam a pretensão de finalidade excelente aristotélico-platônica, demonstrando o poder pelo poder. No Livro I da República de Platão, com o sofista Trasímaco, vemos o interesse do mais forte, correspondente ao governo, deter o poder e se auto proclamar o princípio da justiça. Por sua vez, em Maquiavel, o jogo de máscaras é a natureza da realpolitik (la verità effetuale della cosa), na qual ações falsas podem ser ações boas, meios perniciosos podem produzir instituições (ordenatio) longevas. As possibilidades abertas pela contingência, pela fortuna, seguem a regra de deliberação, da ocasião: “É preciso, então, que, acusando-o o fato, o efeito o escuse”, (MAQUIAVEL, 2009, p. 438-39) sintetizado na fórmula atribuída equivocadamente a ele, “os fins justificam os meios”.
O que assola o pensamento político é justamente tamanha continuidade material da questão. O permanente jugo do mais forte sobre os mais fracos, a arbitrariedade moral das ações soberanas, enfim, a persistência da servidão, que variaria apenas em modo: escravista, feudalista, capitalista (este último a autonomizando no fetichismo da mercadoria, anônimo e impessoal). A submissão pode, portanto, ser pensada no sentido dos modos de reprodução da forma social; tanto a forma tribal quanto a escravista e capitalista seriam reproduzidas pela habituação cotidiana, modulada pelas condições materiais e históricas3 (PERLMAN, 2015, p. 29-31). Ainda que, claramente, a forma de cada reprodução deva ser tratada particularmente – como, por exemplo, entre outras coisas, o despotismo capitalista se mantendo pela violência generalizada (cf. BENJAMIN, 2003; CAMATTE, p. 116).
Há grande relevância, no entanto, o deslocamento da pergunta que se efetua sobre o político quando La Boétie transpõe o problema, da voz ativa do dominador para a voz ativa do dominado. O problema da servidão é compreendido como sendo “[d]os próprios povos que se deixam, ou melhor, se fazem dominar, pois cessando de servir estariam quites” (LA BOÉTIE, 1999, p.14). Portanto, antes da questão se enunciar pelo vetor da dominação externa, dos modos de coerção do social ao individual, dos dominadores aos dominados, o Discurso da Servidão Voluntária se pergunta pelo vínculo libidinal estabelecido pelo povo com seu senhor, pela busca ativa da relação de dominação.
Aqui a pergunta pela causa final do político (a justiça, a felicidade, o que for), se dissolve para aparecer como o problema da fixação, estratificação, ou poderíamos dizer, enervamento libidinal dessa misteriosa e eternamente adiada finalidade do corpo social. Por que o assentimento de ser meio para essa finalidade sem fim eternamente adiada? Jean-François Lyotard se ocupa em Economia Libidinal justamente desse vão prospectivo, no léxico psicanalítico, da inibição “que desvia o desejo do seu objeto primário aos meios de sua realização” (LYOTARD, p.103). No automatismo maquínico do capitalismo, isso significa a produção do desejo pelo próprio meio de produção – na produção do capital fixo –, a dominação real pelo capital4, e não mais pela finalidade ideologicamente prometida e eternamente adiada. “A tarefa da ideologia capitalista” não é nada mais nada menos do que a de “manter o véu que impede as pessoas de ver que as suas próprias atividades reproduzem a forma de sua vida quotidiana” (PERLMAN, 2015, p. 31). O mesmo que Marx apreende como a inversão da finalidade da produção, que destitui a finalidade humana da produção e alça a própria produção e acumulação como reino dos fins (de forma grosseira, essa seria uma diferença, em termos de finalidade, da passagem do capitalismo para o comunismo). É uma operação de dois polos dialéticos que aqui se encontra, objetivos e subjetivos: a economia política diz respeito também à produção do desejo pela produção. Como Baudrillard enuncia: “não é mais uma questão de ‘ser’ alguém, mas de ‘produzir’ a si, […] de acordo com esse esquema de produção posto a ele como a dimensão última de valor e sentido.” (BAUDRILLARD, 1975, p. 19).
Economia política é economia libidinal5.
O retrato clássico dessa dinâmica é enunciado por Lafargue, que repete o mote provocador de La Boétie. Enquanto este último buscava compreender o “funesto acaso” do desejo de dominação pelo Um, aquele, enigmaticamente almeja entender a “estranha loucura que se apossou da classe operária francesa, isto é, à sandice que é a paixão pelo trabalho assalariado.” (CHAUÍ, 2014, p. 178) O desejo de trabalhar, o desejo de servir; e o motivo se repete.
A fome do ouro, auri sacra fames, que tem sua gênese exposta por Max Weber em seu clássico A ética protestante e o espírito do capitalismo, identifica a racionalidade ética do trabalho no capitalismo com o ethos burguês, Weber, no entanto, não indaga se “ela é racional para os produtores do capital, isto é, para a classe trabalhadora nem indaga como a ética burguesa conseguiu tornar-se ética proletária.” (CHAUÍ, p. 171, 2014). O desejo pela produção é gestado e movido como espírito e gana do capitalista (ou proto-capitalista), para ser convertida, na escala ideológico-fetichista impessoal, no desejo da produção pela produção, ou seja, no circuito do capital (D – M – D’) a operar na vertigem do infinito irrepresentável. Quando o trabalho assalariado rege a organização social por meio da divisão em classes (a capitalista, que o compra como qualquer outra mercadoria, e a proletária, que o vende), as condições de vida coincidem com as condições do trabalho. Daqui também, a vertigem do infinito do capitalismo aparece condicionada pela exploração da força de trabalho, pois, apenas na medida em que o salário corresponde à reprodução do trabalhador (o custo de vida), e não pelo seu tempo integral de trabalho (daqui o conceito de mais-valor absoluto), a reprodução ampliada do capital tem uma de suas condições postas e o progresso ser esperado. A dominação aqui, consistiria no aterramento do corpo do proletariado na corrente da produção, que sob a cifra do Progresso, encarna o novo deus6. A pergunta pela naturalização da servidão humana, portanto, se repõe quando Lafargue aponta que o trabalho, aquilo mesmo que destrói o proletário, aparece como conquista revolucionária de um bem (CHAUÍ, 2014, p. 180), pois é a reprodução da sua própria vida.
Diante disso, o recado da idealista antropologia marxista, de que a razão da crítica da economia política é fazer aparecer o valor de uso primordial detrás da ilusória mercadoria enriquecida com mais-valor (de código, signo, trabalho, pouco importa), não pode passar incólume, tendo em vista que o útil já é a condecoração fetichista do objeto em uma função naturalizada pelas relações sociais no capitalismo, a reificação da segunda natureza do objeto. Exigindo ir para além do valor de uso, Jean Baudrillard argumenta:
A hipótese é, com efeito, que as necessidades (o sistema das necessidades) são o equivalente do trabalho social abstrato: nelas se funda o sistema do valor de uso como no trabalho social abstrato se funda o valor de troca. […] E são as duas feitizações, a do valor de uso e a do valor de troca, só elas reunidas, que constituem o feiticismo da mercadoria. (grifos no original, BAUDRILLARD, 1972, p. 162).
Isso significa que, em primeiro lugar, a mercadoria aglutina e cristaliza o excesso da predatória cadeia produtiva, em segundo lugar, que a ideologia e o fetichismo operam estancando o escorrimento da aparição do excesso, substituindo-o por signos de prestígio7 e na moda, que “prescreve o ritual segundo o qual o fetiche, que é a mercadoria, deseja ser adorado” (BENJAMIN, 2009, p. 58), e por último, que o idealismo antropológico-marxista das necessidades depõe contra esse excesso tentando mostrar que o exíguo lustre do valor de uso, resiliente contra o fetichismo e antecedente concreto do valor abstrato, teria de ser resgatado, já que repousa eternamente para além da economia política, desvinculado da sociedade de consumo. Haveria nessa leitura antropológico-idealista, o próprio nexo subjetivo do capitalismo, o seu modo de produção de subjetividades, de contrabando: “A definição de produtos como úteis e respondendo a necessidades é a mais bem-acabada, mais internalizada expressão da troca econômica abstrata: seu fechamento subjetivo. […] a precipitação final da lei do valor.” (BAUDRILLARD, 1975, p. 25). É a perspectiva revolucionária de um retorno às cabanas que aparece aqui, do naturalmente necessário… somente o necessário, como se tivesse ao alcance da mão8.
É o objetivo das revoluções acelerar isto: o corpo emancipado pela liquidação da primeira tecnologia
*
Revoluções são inervações do coletivo – tentativas de dominar a segunda natureza, em que a maestria das forças sociais elementares se tornou pré-requisito para a alta maestria técnica das forças naturais elementares. Assim como uma criança que aprendeu a manipular [grasp] as coisas, estica as mãos para a lua como quem pegaria uma bola, toda revolução almeja tanto os objetivos atualmente utópicos, quanto aqueles ao alcance. (BENJAMIN, 2002, p. 134)
Segundo Walter Benjamin, a utopia da primeira natureza e primeira tecnologia, a saber, a dependente daquela ilusão antropológica do valor de uso e da utilização máxima do homem, está mais distante que a utopia da segunda natureza e da segunda técnica, ou seja, da organização social e tecnológica e utilização mínima do homem9. (idem, 2002, p. 133; BENJAMIN, 2012, p. 41).
Mas, voltemos a Rousseau e o seu projeto de retraçar as origens da desigualdade, no interior da instabilidade civil, depende necessariamente do gesto emancipatório fundamental, que segundo o filósofo britânico Mark Fisher, é de “destruir a aparência de uma ‘ordem natural” (FISHER, 2020, p. 34.): ou seja, ao negar a necessidade aparente do estado social, Rousseau o demonstraria em sua contingência essencial10. Na filosofia moderna, Jean Jacques Rousseau e La Boétie, expressamente enunciam a contingência no “funesto acaso” (LA BOÉTIE, 1999) da servidão voluntária, posteriormente enraizada como segunda natureza, e nos “singulares e fortuitos concursos de circunstâncias […] que poderiam muito bem jamais ter acontecido” (ROUSSEAU, 1999, p. 63) que levam o bom homem selvagem ao corrompido ser social e à escandalosa pergunta: “como [o homem] chegaria ao ponto de fazer-se obedecer?” (ROUSSEAU, 1999, p. 65). O eco dessa voz ativa revisita La Boétie (que em sua formulação, se fazem dominar), uma vez que, em ambos autores, os homens não só compactuam com a subjugação, como se comprometem em exercê-la em cadeia, no que Marilena Chauí chama de “cadeia de tiranetes”, ou seja, nas palavras de Rousseau, “quando consentem em carregar grilhões para por sua vez poder aplicá-los” (ROUSSEAU, 1973, p. 284). Os homens passam a promover a servidão a condição de ordem social naturalizada, reforçando e dando continuidade à desigualdade social. Rousseau chega a lamentar o período em que os homens, ainda que já tendo adulterado a piedade natural e se tornado menos tolerantes, ainda estavam numa “posição média exata entre a indolência do estado primitivo e a atividade petulante de nosso amor-próprio”, enfim, em “época mais feliz.” (ROUSSEAU, 1999, p. 93).
A questão da segunda natureza da servidão nos conduz novamente ao gesto emancipatório de Rousseau, de procurar suas origens, recusar sua inscrição direto na natureza humana. Este gesto o leva a procurar compreender tal enraizamento social como uma questão de costume, de hábitos persistentes os quais, por contágio, produzem e propagam modos de individuação civil servis.
Há de se insistir, antes de mais nada, em uma breve comparação na ordem da gênese do “reino do egoísmo” entre Rousseau e Hobbes, pois é nele que se concretiza as relações de dominação e subjugação: “o que Hobbes via no começo dos tempos Rousseau vê no fim” (MATOS, 1978, p 30) diz Olgária Matos. A gênese hobbesiana desponta do reino do egoísmo: de uma desconfiança e hostilidade generalizada entre homens angustiados, o direito natural do salve-se quem (e como) puder impõe à razão inferir e calcular sua lei natural: a construção do Estado, enquanto recorda (e insiste em recordar) a imagem pavorosa do que é a vida sem o Estado11. No pólo oposto da gênese, Rousseau retraça o primado da piedade, a única virtude natural, a temperar as outras paixões por meio da disposição a “uma repugnância inata de ver sofrer seu semelhante, o ardor que consagra ao seu bem-estar” (ROUSSEAU, 1973, p. 259). A piedade natural, no entanto, é espremida e soterrada pela série de contingências que se estratificam a sociedade civil no “reino do egoísmo”. De todo modo, a piedade natural se difunde no estado civil nas virtudes sociais: “a generosidade, a clemência, a humanidade” não são nada mais que “a piedade aplicada aos fracos, aos culpados ou à espécie humana em geral” (ROUSSEAU, 1999, p. 78)
Há de se pensar no enfraquecimento da disposição natural do compadecimento, da comiseração, no reino do egoísmo do homem civil. Isto se deve ao “amor-próprio”, próprio ao raciocínio, fortificado pela reflexão, isolado pela filosofia. A antípoda da natureza. Há uma pista para melhor compreensão desse movimento de degeneração da piedade natural quando Rousseau aponta a diferença de intensidade na comiseração: “A comiseração, com efeito, mostrar-se-á tanto mais enérgica quanto mais intimamente o animal espectador se identificar com o animal sofredor.” (ROUSSEAU, 1999, p. 78). Aquele que sofre e aquele que olha, quanto mais esgarçada a diferença entre esses dois, mais aguçado o peso social do ‘amor próprio’. É uma imagem anti-cartesiana por excelência que Rousseau apresenta na compreensão a existência de “um ‘ele’ que se pensa em mim, e que me faz primeiro duvidar de que sou eu quem pensa”, (LÉVI-STRAUSS, 1993, p. 44-5) ou seja, alçar como princípio a recusa de si, o desamparo. O primado da alteridade aqui, aparece conceitualmente na ‘piedade natural’ cujo nêmesis e antípoda, cabe sempre insistir, é o ‘amor-próprio’12.
E não à toa que Rousseau fala diferindo entre animais, espectador e sofredor. Daqui o justo fim enunciado em sublimes máximas racionais como “Faze a outrem o que desejas que façam a ti” e sua forma menos perfeita da bondade natural já tingida pelo amor-próprio, “Alcança teu bem com o menor possível a outrem” precisa ser expresso em seus confins naturais, no sentimento piedoso antes do raciocínio arguto, no incômodo limiar entre o homem e o animal. Jacques Derrida, em O Animal que logo sou demonstra o lugar desse limiar no mal-estar do encontro com um gato a olhá-lo nu. A nudez acompanhada da vergonha por Derrida frente-a-frente com um gato expõe a sensação da piedade (do gato para Derrida) e o envergonhamento de si do homem “estar nu como um animal” (DERRIDA, 2002, p. 17), assim como também expressa o esvaziamento desse mesmo espaço quando civilizado, repondo o anti-cogito rousseauísta, escreve Derrida:
Diante do gato que me olha nu, teria eu vergonha como um animal que não tem o sentido de sua nudez? Ou, ao contrário, vergonha como um homem que guarda o sentido da nudez? Quem sou eu então? A quem perguntar, senão ao outro? E talvez ao próprio gato?
(DERRIDA, 2002, p. 18)
As ressonâncias de Rousseau ficam claras e dificultadas quando pensamos, a partir do texto de Derrida, no agravamento da distância do sentimento de piedade diante da racionalidade do amor próprio. Ademais, a fatia da diferença entre parecer e ser compreendida pelo genebrino entre as origens da desigualdade social como operador dos destacamentos sociais, motor da ambição e desejo de prestígio, é demonstrado pelo filósofo da diferença na gestação do pudor ao se ver visto desnudado, vulnerável, pelo olhar do outro. O importante aqui é que o sentimento da piedade natural em Rousseau e o encontro envergonhado com o outro animal em Derrida, sublinham a estrutura da alteridade. Se Rousseau notava isso em 1750 e Derrida sentia em foro íntimo nos meados de 1997, restaria examinar a interferência social no sentimento da piedade natural para além do parasitismo da razão egóica.
A estrutura da alteridade que transparece inicialmente na hipótese genética rousseauísta pelo sentimento da piedade natural de ver o outro, para depois ser obscurecida pelo amor próprio, é um dos polos da estrutura relacional cujo brilho esquálido fez Derrida se ver visto no encontro com o bichano. No entanto, quando Adorno retoma as discussões sobre ética da compaixão, o problema da servidão voluntária sob o capitalismo tardio aparece na própria estrutura da alteridade e no sentimento de piedade.
[…] [O] conceito de compaixão tacitamente mantém e sanciona a condição negativa de impotência em que o objeto de nossa piedade se encontra. Não há nada na ideia de compaixão quanto a necessidade de mudar as circunstâncias que produzem sua necessidade, […]. Em suma, [as circunstâncias] são hipostasiadas e tratadas como imutáveis. A partir disso podemos concluir que a piedade expressa diante de alguém sempre contém um elemento de injustiça àquela pessoa; […]. (grifo nosso, ADORNO, 2000, p. 174)
Novamente, as duas vozes ativas da servidão voluntária, sob o registro de uma economia libidinal e da dominação real, permitem se reinscrever no capitalismo tardio sob o signo da piedade rousseauísta, quando compreendemos esta última, a partir da crítica de Adorno, como um gesto não reflexivo de autenticação do estado de coisas. Predispondo o sujeito a ter na miséria algo intrínseco ao social, como algo natural, reforçam-se as condições que a produzem e obscurecem-se as alternativas13. O modelo da piedade burguesa se mostra, desde Rousseau, nas suas considerações em Emílio sobre a relação entre hábito e insensibilidade, segurança própria e indiferença alheia14, mas particularmente ao ser transposto para o capitalismo tardio, viciante. Como um narcótico, a objetividade habituada e entorpecedora da desigualdade social reinscreve sentimentos de alteridade da primeira natureza em gestos de compaixão que reforçam a injustiça na segunda natureza. Se o mau encontro que Rousseau aponta na saída do estado de natureza destitui a alteridade intrínseca ao homem, sua reposição póstuma é de se, no mínimo, desconfiar. Ao fim e a cabo, o argumento adorniano reforça a máxima de suas reflexões em Minima Moralia: não há vida verdadeira na falsa e se conjuga às reflexões de Benjamin sobre a compaixão e a exibição da miséria.
IV. Não é por acaso que se fala da miséria ‘nua e crua’. O que há de mais funesto na exibição dessa miséria – que, sob o signo da necessidade, se tornou habitual, embora mostra apenas a milésima parte do que está escondido – não é a compaixão, nem a consciência, igualmente terrível, da imunidade própria, sentida por quem vê, mas a vergonha disso. Tornou-se impossível viver numa grande cidade alemã, onde a fome força os miseráveis a viver das notas de banco com que os transeuntes procuram tapar uma nudez que os fere. (BENJAMIN, 2013, p. 19)
A miséria do outro coitado repelido ou acolhido pelo gesto piedoso é o sinal secreto de apaziguamento e estabilidade social. Na Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire, relemos o teor da mesma crítica em termos de um gestual piegas e sentimental do opressor solidário, que mantêm as cordas da vinculação da opressão e dependência, para a manutenção contínua de sua falsa consciência de solidariedade e da autenticação das relações de dependência sob a caridade, a piedade e a dó. Daí a dose de injustiça que Adorno diz haver no viciante gesto de piedade. O teor da questão não se mostra incontornável, ainda que de difícil socorro:
Nessa altura, o que tem a fazer, o que tem a fazer é manter os sentidos despertos para toda a humilhação que sobre eles recaia, e controlá-los até que o seu sofrimento deixe de escorregar pelo plano inclinado da amargura, para enveredar pelo trilho ascendente da revolta. Mas toda esperança será vã enquanto todos esses destinos terríveis e sombrios forem apresentados pela imprensa diariamente, de hora a hora, sempre com causas e consequências fictícias, não ajudando ninguém a reconhecer as forças obscuras a que a sua vida passou a estar submetida. (BENJAMIN, 2013, p. 20)
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O horizonte dos futuros passados, no entanto, pode e deve ser recuperado na memória coletiva. O resgate das experiências que a antropologia revela, e a crítica recupera, adianta imagens perdidas, enterradas vivas e que nos rondam. Não necessariamente as imagens do passado, no entanto, como nos apresenta Walter Benjamin ao convidar-nos a imaginar “como seria uma vida que, num momento decisivo, se deixasse levar pela última e mais popular canção de rua” (BENJAMIN, 1985, p. 21-35). O convite é renovado e imaginado por Wilson das Neves como “O dia em que o morro descer e não for carnaval”, a fanfarra carnavalesca, o momento de encenação da inversão das relações sociais, permanece na potência revolucionária do tempo de agora. O momento decisivo, o tempo de agora, aparenta resgatar uma outra forma de felicidade que não aquela dinamizada enquanto causa final, mas nos moldes da recusa do desespero que fecha as portas do curso deste para um outro mundo, e o abraçar da felicidade enquanto fragmento daquela felicidade que nos é recusada, e que recusamos de nós mesmos, como diria Adorno (ADORNO, 2009, p. 334). Não à permanência da submissão ao estado de coisas, à cadeia de tiranetes que coordena e hospeda a procissão infernal da catástrofe a partir do ‘funesto acaso’ primordial, mas o reconhecimento do resplandecer da alvorada, do sopro de uma outra vida, que insiste em não se subtrair à memória coletiva.
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