BOSCH, Hieronymous. Cristo no Limbo. circa 1575. Óleo sobre tela. 58.1 x 72.1 cm.
Ao longo de uma vistosa canaleta em uma avenida lisa (com alguns poucos buracos) e não-paralelepípedica, arrastava-se ereto um homem sem direção. Andava como quem tivesse pifado fora do trilho de feromônios que encaminha todo transeunte para lugar algum. Perambulava, de semicírculo em semicírculo rodava em falso. Errava à deriva em um fuso de flaneurie não-francês. Era a verdade não-fardada da palavra de ordem desobedecida: ‘circulando’. Não era um dândi e nem vestia trapos, era um homem médio. A finalidade de sua trajetória podia ser antecipada na direção de um tubo de ônibus para desaparecer renovando a perambulação. Usando uma camisa azul-clara com todos os botões de cima desabotoados, o homem voltava sua vista a uma firma notória do bairro, claro! Para lá se dirigia, até que novamente frustrava a expectativa de uma vida propositada. Ao nosso olhar ajoelhado, um Arauto anti-ciberneticista. Se o mundo fosse um manicômio o homem estaria amarrado a um poste de luz. Beatificai-vos. O homem em piripaque aparecia, então, num ato absurdo, com uma vela em sua mão, extraída de um outdoor da BOSCH: “Velas, Cabos e Bobinas de Ignição”.
Ao topo de um prédio de concreto morto, o mais alto e magnificente graffiti exclamava como uma sirene faroleira para toda cidade, “NÃO”, e lá ele entrou. Iluminando a todos com aquela tão esperada vela de ignição, naquela escuridão de um rol salpicado de craca envernizada na proto-forma de radioativas poeiras vivas mais vistosas que a canaleta, o homem perguntava, “tem alguém aqui?” para o que os bem-acompanhados Amputados Manequins de Luxo respondiam: “NÃO”.
