Já parece que cortaram minha coluna cervical longitudinalmente rodada a 90º. Qualquer centelha umbilical de contato mundano é extirpada dos canais encefálicos e circuitos sinápticos que permitiram outrora escrever com Roberto Piva em devaneio comendo cus na solidão de um comboio de maconha sonhando que era um Serafim. O fluxo vital, onírico, cognitivo, afetivo contagioso não existe com restrições nutricionais, nossa dieta fascista, maldosa e castradora em que só se pode comer e digerir depois de quatro horas e quinze minutos de assalto às frequências cósmicas que nunca parar de circular nos canais de transmissão schreberianos. Me enterra logo nessa merda de caixão cognitivo que hospeda o homem em suas kilocalorias e medidas funerárias. E se um prédio brutalista interrompesse, com suas linhas de concreto e metros cúbicos de massa falida pedregosa seu fôlego, e se um andar inexistente não pudesse ser acessado por nossas línguas elétricas, para que, finalmente, o auge de uma queda descontrolada nos fizesse ralar peito (mão, cotovelo, ombro e pênis em busca de um coco ralado e um rala-rala) nos fizesse ralar de dentro de toda porra de sala fechada por dry-walls sem barreira sonora? Que merda de domo de papel é esse que é incapaz de interromper amplitudes acústicas, mas é capaz, como nada, de interromper realidades ficcionais? Como pode um antro demoníaco da ciranda caquética amarrar pernas e coxas e impedi-lo de andar saracoteando por aí e cá por lá? É numa dança noturna na saída do ônibus que iniciava ao interromper a música não-ouvida para que o motora perguntasse: “Quer descer mais na frente?”. Sim, eu quero descer mais à frente, na quadra seguinte, para que possa, finalmente, dançar livre sobre o solo de lava pelo qual posso deslizar, vez ou outra, feito um coxo contra a andança maquinal e cotidiana que vai de lá pra cá, sempre o mesmo trajeto, sempre o mesmo compasso, sempre o mesmo desastre pedagógico. Vestidos com uma armadura de metal armados de pistolas e flores subimos no pedestal para hablar. Quando nunca, os bastidores pulsionais tornam-se visíveis, por palavras maníacas enunciadas em aura milicosa, por domos éticos desfeitos em poucos segundos nos quais se fala: que coisa bonita essa relação. Relação impossível fora do domínio grego de uma paideia de pederastia sexual intergeracional. Relação mais que possível no cercadinho de uma mesa de bar regada de alegria, riso e planejamentos impossíveis de uma prefeitura que nasceu para morrer em conjuntos habitacionais de pau e galho, ministérios de várzea e vagabundagem que finalmente, glória Deus, substituem a danação do trabalho a estratégias revolucionárias limitadas por uma ética anti-escravista que poupa burgueses de campos de trabalho e que reconhece na tortura, mesmo a de sanguinários e morticidas generais israelenses sionistas (sic), uma transgressão impossível para nossas cartilhas insurreicionais.
Viva a longeva cacofonia hereditária filha da puta.
versão em audiovideo em: https://www.instagram.com/p/DLayfhEJN2O/
